A Assembleia Nacional da França --órgão equivalente à Câmara dos Deputados-- aprovou nesta terça-feira (22) o projeto de lei que autoriza o casamento gay e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo no país. Legisladores na Câmara dos Deputados da Assembleia Nacional, onde os socialistas de Hollande contam com uma maioria absoluta, aprovaram a lei por 331 votos a favor e 225 contra.
Claude Bartolone, presidente da Assembleia Nacional, disse ao anunciar o resultado: "Depois de 136 horas e 56 minutos, a Assembleia aprovou o casamento de casais do mesmo sexo."
Uma vez adotada, a maior parte dos deputados da direita abandonou a câmara, enquanto os da esquerda, de pé, aplaudiam e gritavam "Igualdade!".
A ministra da Justiça, Christian Taubira, "madrinha" do texto, disse estar "cheia de emoção" diante o "avanço histórico" que significa a aprovação dessa lei.
"Sabemos que não tiramos nada de ninguém, demos um direito a pessoas que não o tinham. É um texto generoso", analisou a ministra, que se emocionou especialmente quando lembrou "os adolescentes que foram vítimas de violência por sua orientação sexual".
"Quero dizer que têm todo o seu espaço nesta sociedade, sem ter que se preocupar por seus gostos, por sua orientação sexual. Não tenham medo nunca mais, vocês não têm nada para censurá-los", disse.
Os primeiros casamentos entre pessoas do mesmo sexo poderão ocorrer em meados de junho no país.
A primeira-dama francesa Valerie Trierweiler comemorou a decisão em seu twitter: "Realmente eu amo 23 de abril. E ainda mais. # Dia histórico. # Igualdadeparatodos", escreveu.
A ministra da Família da França, Dominique Bertinott, sempre favorável à votação, também escreveu na rede social: "Como cidadã, como uma mulher de esquerda, estou satisfeita e orgulhosa pela aprovação dessa lei de igualdade # Casamentoparatodos".
A oposição conservadora anunciou que recorrerá perante o Conselho Constitucional, que deverá se pronunciar nas próximas semanas, antes de a lei entrar em vigor. A direita planeja ainda continuar os protestos. Novas manifestações estão previstas para 5 e 26 de maio, em Paris.
Protestos
O projeto encontrou forte oposição de conservadores e grupos religiosos, e a discussão mobilizou centenas de milhares de franceses contrários e favoráveis ao casamento gay em todo o país, em
protestos que muitas vezes acabaram em prisões e confronto com a polícia. Com a lei aprovada, a França se transforma no 14º país a estender os direitos do casamento aos casais homossexuais.
A legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma das promessas de campanha do presidente François Hollande, eleito no ano passado.
Duas grandes marchas contra o casamento gay em janeiro e em março levaram, cada uma, cerca de 300 mil manifestantes às ruas, segundo números da polícia --organizadores das passeatas estimam mais de 1 milhão em cada protesto. Em março, após tumultos, a polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes, e dezenas de pessoas foram presas.
Para os socialistas, o terreno preparado pelas manifestações favoreceu o aumento das agressões denunciadas por entidades LGBT --como no último sábado (20), quando um casal gay foi pisoteado quando saía de uma boate gay de Nice.
Embora faça questão de se distanciar de todos os incidentes violentos, o coletivo "La Manif Pour Tous" ("Manifestação Para Todos") assegura que os protestos continuarão mesmo após a aprovação da lei.
Ameaça
A carta, que continha pólvora de munição em seu envelope e dizia que "a família política" de Bartolone poderia "sofrer fisicamente", foi encerrada com a seguinte ameaça: "Nossos métodos são mais radicais e rápidos que as manifestações. Vocês queriam guerra e a terão".
Casamento gay no mundo
Permitido atualmente em 13 países, o casamento gay foi aprovado primeiro na Holanda e depois adotado por Bélgica, Espanha, Canadá, África do Sul, Noruega, Suécia, Portugal, Islândia, Argentina e Dinamarca e, recentemente,
Uruguai e
Nova Zelândia.
De acordo com a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transsexuais), Bahia, Alagoas, Paraná, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Piauí, Sergipe e Ceará e Distrito Federal têm normativas similares.
Nos Estados Unidos --com Barack Obama como o primeiro presidente a declarar publicamente seu apoio à legalização do casamento gay--, dez Estados já reconhecem a união gay. A Suprema Corte americana se reuniu em março para discutir mudanças nos direitos dos homossexuais, mas a
decisão foi adiada para junho. (Com agências internacionais).
CONHEÇA OS PAÍSES ONDE O CASAMENTO GAY É AUTORIZADO