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quarta-feira, 25 de abril de 2012

A nova influência do Brasil (O Estado de S. Paulo, 02/03/2012 e Foreign Policy, 28/02/2012)

 

Brazil's New Swagger (versão original)
A potência em ascensão da América do Sul está se afirmando, mas um grande poder traz sempre grandes responsabilidades
DAVID ROTHKOPF, FOREIGN POLICY, É ANALISTA DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE
Enquanto os Estados Unidos avançam de maneira hesitante para aceitar a nova realidade multipolar do mundo, dando um passo atrás para cada passo à frente, fazendo uma violação de soberania excepcional para cada esforço de colaboração em lugares como a Líbia, outros países estão trabalhando ativamente para estabelecer novas regras para todas as nações seguirem na nova era.
Entre os que estão na linha de frente desse esforço, contam-se a presidente brasileira, Dilma Rousseff, e seu respeitadíssimo chanceler, Antonio Patriota.
O desafio que Dilma e Patriota enfrentam como servidores públicos é assustador. Cada um deles segue as pegadas de um formidável antecessor.
O desafio de Dilma é, admitidamente, muito maior e, de fato, para muitos, parece quase insuperável. Ela sucede a dois presidentes que foram, provavelmente, os mais importantes da história moderna de seu país, Fernando Henrique Cardoso, a quem é creditada a estabilização da economia brasileira após anos de volatilidade, e o antecessor imediato dela, Luiz Inácio Lula da Silva, não somente seu mentor, mas um integrante do pequeno punhado dos líderes mundiais mais importantes da última década.
Já o antecessor de Patriota, Celso Amorim, foi também formidável, extremamente influente, e uma presença constante no cenário brasileiro e internacional. O desafios eram grandes para todo o governo de Dilma.
No entanto, após um ano no cargo, e apesar de enfrentar grandes desafios domésticos e internacionais, a presidente já alcançou um índice de popularidade superior ao de Lula num ponto equiparável de seu mandato.
E Patriota está dando continuidade com calma, e aos olhos de observadores próximos, com grande habilidade, ao trabalho desbravador de Amorim para estabelecer o Brasil como um líder entre as grandes potencias mundiais.
"Temos uma grande vantagem", observa Patriota. "Não temos inimigos reais, nem lutas em nossas fronteiras, nem grandes rivais históricos ou contemporâneos entre as fileiras das potências mais importantes... e temos laços duradouros com muitas nações desenvolvidas e emergentes do mundo." Essa é uma condição que não é desfrutada por nenhum dos outros Bric - China, Índia e Rússia - nem, aliás, por alguma grande potência tradicional do mundo. Essa posição incomum é fortalecida ainda mais pelo fato de o Brasil não estar investindo tão pesadamente quanto as outras potências ascendentes em capacidade militar. Aliás, como observou Tom Shannon, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, o país é um dos poucos a efetivamente apostar seu futuro na aplicação sábia do chamado "poder brando" - diplomacia, alavancagem econômica, interesses comuns.
Não é por coincidência, aliás, que, em áreas que vão das mudanças climáticas ao comércio, da não proliferação nuclear ao desenvolvimento, o Brasil, sob o comando de Lula e Amorim e de Dilma e Patriota, vem ganhando força ao traduzir o crescimento consistente em casa e a diplomacia ativa no exterior em redes internacionais efetivas.
Mas o governo de Dilma também está rompendo com o passado. Enquanto Cardoso e Lula alcançaram a grandeza enfrentando e resolvendo alguns dos problemas mais ruinosos do passado brasileiro, da estabilização da economia ao enfrentamento da desigualdade social, Dilma, sem deixar de reconhecer o trabalho que resta a ser feito, concentrou sua atenção também na criação de oportunidades e num claro caminho para o futuro do Brasil. De seu foco em educação a seu compromisso com ciência e tecnologia passando por programas inovadores como "Ciência Sem Fronteiras", ela está fazendo algo que nenhum líder latino-americano fez anteriormente, mas que se mostrou uma fórmula aprovada na Ásia.
Está comprometida em transformar o Brasil de economia com base em recursos naturais e, portanto, dependente (o que significa dizer, vulnerável) em uma que conta mais para o crescimento futuro com as indústrias de valor agregado, a pesquisa e desenvolvimento, e a formação de mais cientistas e engenheiros.
Com base nisso, Patriota também está olhando para frente. Ele está indo além da era da política externa brasileira em que era inovador fazer o país olhar para fora de sua região e jogar um papel ativo nos assuntos globais, para um período, num futuro não muito distante, em que o Brasil, na condição de país com uma das cinco maiores economias e populações do mundo, de líder mundial em agronegócios e energia, assumirá sem hesitação que merece seu lugar à mesa.
Patriota esteve em Nova York por achar que um dos primeiros experimentos dessa era, a intervenção na Líbia sancionada pela ONU, saiu dos trilhos quando a missão autorizada pelas Nações Unidas de proteger o povo líbio foi deixada de lado pelas forças internacionais que intervieram tornando-se antes uma missão de mudança de regime. Ele não era nenhum admirador de Muamar Kadafi, que fique claro. Mas tem o sentimento inabalável de que, para a comunidade internacional operar de fato unida, ela precisa fazê-lo sob regras não só coletivamente estabelecidas, mas também coletivamente honradas.
Essa atitude provoca irritações, com certeza, em especial em países como os Estados Unidos, que estão acostumados a operar segundo suas próprias regras. Essa é uma razão por que a iniciativa turco-brasileira de 2010 para costurar um acordo para desarmar a crise nuclear iraniana foi tão irritante para Washington. A medida, por mais ingênua que tenha parecido para alguns, antecipou o início de uma era em que potências regionais e emergentes, como Turquia com Síria ou China com Irã, são fundamentais para se alcançar os objetivos da comunidade internacional.
Patriota reconhece que os Estados Unidos, sob o comando de Barack Obama, e outras potências estabelecidas avançaram bastante para se adaptar a essa nova realidade. Dito isso, ele gostaria de ver Obama avançar mais. Por exemplo, os brasileiros estão entre as potências emergentes que pressionam por reformas reais na maneira como as instituições internacionais são conduzidas. Eles acham que a ordem pós-2.ª Guerra refletida na estrutura de poder do Conselho de Segurança da ONU e na concessão automática da liderança do Banco Mundial a um americano está obsoleta e que já é hora de alguma coisa que reflita as realidades do século 21 e seja mais consistente com os princípios democráticos sobre os quais essas instituições foram estabelecidas.
É difícil discordar dos brasileiros ou de outros sobre esses pontos. E a inconsistência mostrada pelo governo Obama nessa frente - oferecendo apoio a uma participação permanente indiana, mas não brasileira, no Conselho de Segurança, em certo momento parecendo simpático a uma abertura do principal cargo no Banco Mundial a um não americano, mais recentemente parecendo recuar dessa ideia - tem sido irritante e, eu diria, irrefletida.
O que Dilma e Patriota estão tentando fazer na frente internacional é, de fato, tão revolucionário quanto o que seus antecessores fizeram.
Eles compreendem que um multilateralismo bem-sucedido agora requer não só maior número de países, mas abertura a uma multidão de ideias.
Durante a Guerra Fria, o debate era binário: soviéticos ou americanos.
Em sua esteira houve a breve ilusão de que havíamos entrado num momento de fim da História em que uma filosofia de mercados e democracia liderada pelo Consenso de Washington adquiria uma espécie de status de monopólio no mercado das ideias. Mas depois vieram as tragédias gêmeas, frutos da arrogância, do Iraque e da crise financeira de 2008, a simultânea ascensão de novas potências como Brasil, China, Índia e outros - e entramos em uma nova era. Em meu livro, Power, Inc., me refiro ao lado econômico dessa era como um período de capitalismos concorrentes. Mas ele é também um período de filosofias políticas concorrentes sobre o papel, tanto do Estado, como das instituições internacionais. Nesse mundo, não só os Estados Unidos são apenas uma voz, mas são também uma voz enfraquecida que em cada evento será ouvida como a mera visão de menos de 5% da população do planeta. Ao mesmo tempo, outros terão de preencher o vazio criado pelo redimensionamento da influência americana. O Brasil está tentando fazê-lo e, é preciso notar, de uma maneira consideravelmente mais construtiva que a evidenciada por China e Rússia em seu desempenho pusilânime com respeito à Síria no Conselho de Segurança. Dito isso, as potências emergentes, o Brasil entre elas, precisam reconhecer que, neste novo mundo, se pretendem jogar papéis maiores, elas também terão de fazer escolhas duras e não simplesmente desconsiderar as questões complexas como problemas alheios ou fora do alcance do sistema internacional em evolução. Elas vão ter de aceitar cada vez mais que se as injustiças não forem contidas, os custos resultantes serão largados em suas portas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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South America's emerging superpower is coming into its own. But with great power comes great responsibility.
BY DAVID ROTHKOPF | FEBRUARY 28, 2012
While America's halting path toward accepting the world's new multipolar reality involves a step backward for every step forward, an exceptionalist violation of sovereignty for every bit of teamwork in places like Libya, other countries are actively working to establish new rules for all nations to follow in the new era.

Among those at the forefront of this effort are Brazilian President Dilma Rousseff and her highly regarded foreign minister, Antonio Patriota. He was in New York last week to advance this effort at the United Nations, and we sat down for lunch together.
The challenge facing Rousseff and Patriota as public servants is a daunting one. Each follows in the footsteps of a formidable predecessor. Admittedly, Rousseff's challenge is much greater and indeed, to many, seems almost insurmountable. She succeeds two presidents who were arguably the most important in her country's modern history, Fernando Henrique Cardoso, who is credited with stabilizing the country's economy after years of volatility, and her immediate predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, not only her mentor but one of a tiny handful of the world's most important leaders of the past decade. But Patriota's predecessor, Celso Amorim, was also formidable, extremely influential, and a fixture on the Brazilian and international scenes. The bar was set high for her entire administration.
Nonetheless, after over a year in office, despite facing great domestic and international challenges, Rousseff has already earned a higher popularity rating than did Lula at a similar point in his tenure. And Patriota is quietly and, in the eyes of close observers, with great deftness, building on Amorim's groundbreaking work to establish Brazil as a leader among the world's major powers.
"We have a great advantage," notes Patriota. "We have no real enemies, no battles on our borders, no great historical or contemporary rivals among the ranks of the other important powers … and long-standing ties with many of the world's emerging and developed nations." This is a status enjoyed by none of the other BRICs -- China, India, and Russia -- nor, for that matter, by any of the world's traditional major powers.
This unusual position is strengthened further by the fact that Brazil is not investing as heavily as other rising powers in military capabilities. Indeed, as Tom Shannon, the U.S. ambassador to Brazil, has noted, the country is one of the few to effectively stake its future on the wise application of soft power -- diplomacy, economic leverage, common interests. It's surely no coincidence that, in areas from climate change to trade, from nonproliferation to development, Brazil under Lula and Amorim and under Rousseff and Patriota has been gaining strength by translating steady growth at home and active diplomacy abroad into effective international networks.
But Rousseff's administration is also breaking with the past. Whereas Cardoso and Lula achieved greatness by addressing and solving some of the most bedeviling problems of Brazil's past, from stabilizing the economy to addressing social inequality, Rousseff, while still cognizant of the work that remains to be done, has also turned her attention to creating opportunities and a clear path forward for Brazil's future. From her focus on education to her commitment to science and technology through innovative programs like "Science Without Borders," she is doing something that no Latin American leader has done before but that has been a proven formula in Asia. She is committed to moving Brazil from being a resource-based and thus dependent (which is to say vulnerable) economy to one that counts more for future growth on value-added industries, research and development, and educating more scientists and engineers.
Building upon this, Patriota is also looking ahead. He is moving beyond the era in Brazil's foreign policy when it was groundbreaking to have the country look outside its region and play an active role in global affairs to a period, not too many years from now, when Brazil, as a country with one of the world's five largest economies and populations, as a world leader in agribusiness and energy, is unhesitatingly assumed to deserve its place at the table.
Patriota was in New York because he thought that one of the first experiments of this era, the U.N.-sanctioned intervention in Libya, went off the tracks when the United Nations' mandate mission of protecting the Libyan people was set aside by the international forces that intervened and became instead a mission of regime change. He was no fan of Muammar al-Qaddafi, rest assured. But he does have an unwavering sense that if the international community is to work effectively together it must do so under rules that it not only collectively establishes but that are also collectively honored.
Inevitably, this approach ruffles feathers, especially among countries like the United States that are used to operating by their own set of rules. It's one reason that the 2010 Brazilian-Turkish initiative to cut a deal to defuse the Iranian nuclear crisis was so galling to Washington. The move, however naive many found it, anticipated the beginning of an era in which regional and emerging powers, like Turkey with Syria or China with Iran, are central to achieving the goals of the international community.
Patriota acknowledges that the United States, under Barack Obama, and other established powers have gone a long way toward adapting to this new reality. That said, he'd like to see Obama go further. For example, the Brazilians have been among those emerging powers pressing for real reform in the way international institutions are led. They think that the post-World War II order reflected in the power structure of the U.N. Security Council and in the automatic awarding of the leadership of the World Bank to an American is outdated and it is time for something that reflects 21st-century realities and is more consistent with the democratic principles on which these institutions were established.
It's hard to argue with the Brazilians or others on these points. And the inconsistency shown by the Obama administration on this front -- offering to support Indian but not Brazilian permanent membership on the Security Council, once seeming amenable to opening the World Bank top job to a non-American, more recently seeming to back away from this idea -- has been galling and, I would argue, ill-considered.
What Rousseff and Patriota are trying to do on the international front is, in fact, every bit as revolutionary as what their predecessors have done. They understand that successful multilateralism now requires not just large numbers of countries but openness to a multitude of ideas. During the Cold War, the debate was binary: Soviets or Americans? In its wake there was the brief delusion that we had entered an end-of-history moment in which a Washington Consensus-led philosophy of markets and democracy had earned a kind of monopoly status in the marketplace of ideas. But then came the hubris-born twin tragedies of Iraq and the 2008 financial crisis, the simultaneous rise of new powers like Brazil, China, India, and others -- and we have entered a new era. In my new book, Power, Inc., I refer to the economic side of this era as a period of competing capitalisms. But it is also a period of competing political philosophies, about the role of both state and international institutions. In that world, not only is the United States but one voice, but it is a diminished voice and one that should in any event be heard as merely the views of something under 5 percent of the planet's population.
At the same time, others must fill the void created by the resizing of U.S. influence. Brazil is attempting to do so and, it must be noted, in a way that is considerably more constructive than that evidenced by China and Russia in their pusillanimous performance regarding Syria in the Security Council. That said, emerging powers, Brazil included, must come to recognize that in this new world, if they are to play bigger roles, they are also going to have to make hard choices and not simply shrug off the complex issues as someone else's problem or as being beyond the reach of the evolving international system. They're increasingly going to have to accept that if wrongs go unchecked, the resulting costs will be laid at their doorstep.

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