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terça-feira, 30 de março de 2010

Na fronteira da diplomacia...

Relembrando o ocorrido nos 3 primeiros meses do ano de 2008...


Por Rui Aurélio De Lacerda Badaró
Doutorando em Direito Internacional pela Universidade Católica de Santa Fé
Mestre em Direito Internacional pela Unimep

Autor de vários livros.


O enrijecimento das formalidades fronteiriças entre Brasil e Espanha, iniciado pelo repatriamento de brasileiros sem qualquer motivo aparente, de modo subjetivo, ensejaram a adoção da reciprocidade para com os espanhóis, num possível surto de escalonamento das agressividades entre os países.
Nesses momentos, é preciso jamais perder os olhos da história. Quando a Europa passou por momentos difíceis, incluindo fome e miséria, exportou para o continente americano milhões de pessoas. Nossos sobrenomes, aliás, contam a história dessa emigração: somos portugueses (Nóbrega, Souza, Mamede e outros), espanhóis (De Lacerda, Lopez), italianos (Badaro, De Luca) etc. De outra face, a mesma Espanha que adota posturas restritivas em relação aos brasileiros, tenta forçar o governo brasileiro a permitir que seus navios pesqueiros trabalhem nas costas brasileiras.
É compreensível os custos de políticas específicas na seara internacional, contudo é preciso compreender as demandas de qualquer povo por um mínimo de dignidade no cenário internacional, conforme a pregação da ONU. O mais triste: A Carta de Direitos Humanos da União Européia é um exemplo de posturas que todos os Estados deveriam observar, mas o Reino Espanhol não o fez.
O exercício da reciprocidade vulnerabiliza o turismo. Isso é inevitável. Notadamente porque implica em permitir a aplicação de efeitos jurídicos em determinadas relações de Direito, quando esses mesmos efeitos são aceitos igualmente por países estrangeiros. Lembrando que a reciprocidade implica o direito de igualdade e de respeito mútuo entre os Estados.
O turismo no Brasil pode vir a ser vítima dessa crise, basta ocorrer um acirramento da agressividade entre os envolvidos. Lembra-se também que os espanhóis (europeus) lideram o turismo em nosso país. Mas, nem sempre, o bom turismo: basta lembrar aqueles portugueses (europeus) assassinados há alguns anos no Ceará por um compatriota (europeu, radicado no Brasil), para cá vieram em busca de prostituição infantil. Apenas um exemplo, é claro.
Também é possível que ocorra uma diminuição do fluxo de brasileiros para a Espanha (Turismo emissivo). Não uma diminuição no fluxo de aventureiros que, certamente, correm o risco da deportação. Mas uma diminuição no fluxo de turistas, temerosos pelos critérios de admissão. Mais do que isso, a Ibéria poderá experimentar uma diminuição no fluxo de passageiros para a Europa.
Essencialmente, creio que a América Latina, deve trabalhar com muito cuidado a auto-estima de seus povos, que não são piores do que os europeus. Segundo o jurista Gladston Mamede ”...Eles simplesmente mantêm, pelo contexto histórico, relações de dominância.” Uma história que hoje se expressa em investimentos, mas no passado se expressou em dominação pura e simples.
Insisto: Há necessidade de respeito para com os povos da América Latina. O ouro andino está na Europa e a sociedade aqui existente foi massacrada.A Espanha sobreviveu, por séculos, de mero extrativismo. Devem ter, agora, mais respeito pelos povos daqui.
Termino com a advertência : A falta de pró-ação por parte dos Estados Democráticos de Direito na defesa da dignidade de seus povos poderá trazer à tona aqueles caudilhos que usando um discurso rasteiro e palatável sobre o orgulho nacional (que um dia fizeram desgraça em toda a Europa - Salazar, Franco, Mussolini, Hitler -, sem olvidar das ditaduras militares que assolaram a América em um passado recente”). Reflitam!

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