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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O atual Ministro das Relações Exteriores faz um balanço do governo Lula

IMAGINE SER CONVOCADO PARA UM trabalho em que você terá de viajar sema­na sim, semana não para discutir ques­tões que podem mudar o curso do planeta. E ainda defender o interesse de mais de 190 mi­lhões de brasileiros. Essa tem sido a rotina de Celso Amorim, 68, nos últimos oito anos. O Ministro das Relações Exteriores embarcou 167 vezes, perfazendo 259 visitas oficiais a 117 países diferentes. Não é à toa que, em novem­bro de 2010, o diplomata vai ultrapassar o Barão de Rio Branco, como o homem que por mais tempo exerceu a função de chanceler brasileiro. Nascido em Santos (SP) e formado pelo Instituto Rio Branco, Amorim ajudou a construir a nova política externa do país. Alvo de críticas e de elogios em iguais proporções, ele se mantém na pasta desde o primeiro dia de mandato do presidente. Somente o general Jorge Armando Félix, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, repete o feito de Amorim, ocu­pando o cargo de ministro desde o começo do governo. Em meio a uma semana consi­derada surreal por seus assessores, incluindo 36 reuniões com líderes de todo o planeta e o discurso de abertura da Assembléia-Geral da ONU, onde representou Lula, o ministro das Relações Exteriores falou de Nova York com exclusividade à Rolling Stone Brasil sobre a sua gestão no Itamaraty. E confessa: é hora de dar mais atenção à família.







O senhor acredita que há uma "partidarização" das críticas a respeito das posições adotadas pelo Itamaraty?



Os objetivos da política externa brasileira baseiam-se na Constituição. Há, no entanto, entre os vários governos, diferenças de visão sobre a capacidade do Brasil de influir em questões internacionais. Muita gente ainda subestima a capacidade do país de con­tribuir positivamente para a agenda internacional. O Brasil tem posições coerentes em todas as áreas, tanto que se tornou uma força nas grandes discussões mun­diais, das finanças à mudança do clima, passando por comércio e questões de segurança. Entendemos que a política externa deve ter um certo grau de ousadia. Curiosamente, a imprensa estrangeira valoriza a po­lítica externa brasileira, mesmo quando discorda de algum aspecto específico, o que é normal. As críticas mais contundentes vêm da imprensa brasileira, que parece não gostar do novo papel do Brasil.







Qual foi o momento mais tenso para o senhor durante estes oito anos?



Eu só senti tensão mesmo em situações que envol­veram outras vidas humanas de uma forma muito concreta, quando tivemos que organizar a retirada urgente de brasileiros que viviam no Líbano durante a ofensiva israelense; ou quando o engenheiro bra­sileiro João José Vasconcellos Júnior foi seqüestrado e morto no Iraque; ou com a perda de militares e civis no terrível terremoto no Haiti. Evidentemente, eu gostaria de ter testemunhado a conclusão da cha­mada "Rodada do Desenvolvimento" da OMC e a tão necessária reforma das Nações Unidas. Mas essas são construções complexas e coletivas, que virão com o tempo. Orgulho-me de ter feito o que fiz. Muitas vezes os frutos só são colhidos mais tarde.







Quanto as posições do presidente Lula o influen­ciaram na tomada de decisões e quanto o senhor o influenciou nos momentos de crise externa? No nosso sistema, o presidente é quem define as linhas da política externa e o Itamaraty executa. O presiden­te não "influencia", ele decide. Mas é evidente que cabe ao ministro apresentar os detalhes das questões e dar a sua opinião, que pode ou não ser acatada. Eu diria que sempre houve muita convergência.







Sem Lula, será possível para o próximo gover­no manter o país como um "player" de destaque nas negociações globais, dando continuidade, inclusive, às posições divergentes dos interes­ses de grandes potências?



Além do carisma pessoal do presidente Lula, a po­lítica externa se beneficia das realizações no campo econômico, político e social. Embora impulsionadas inicialmente pelo presidente, tais realizações



são conquistas da sociedade brasileira que continuarão a dar sentido a nossa política externa. Divergências com grandes potên­cias ocorrerão e devem ser encaradas com naturalidade. Só países subservientes não discordam de ninguém.







O senhor se arrepende de algum movi­mento adotado neste governo? Foi justamente por não temer ações ousadas que colhemos inúmeros resultados: integra­ção sul-americana, consolidação do MERCOSUL, criação do G-20 comercial na OMC que mudou a maneira de se negociar naquela Organização -, maior presença na África, missão de paz no Haiti e um crescimento expressivo da presença diplomática brasilei­ra no mundo. O Brasil não pleiteia sozinho a reforma da ONU -- Japão, Alemanha, índia, África do Sul, Nigéria e vários outros países trabalham pela reforma. Mas esse proces­so envolve a concordância de muitos países, e é natural que leve tempo. Ninguém em sã consciência pode acreditar que um órgão que reflete a distribuição de poder militar de 1945 faça sentido hoje. Quanto à questão nuclear iraniana, Brasil e Turquia buscaram criar um ambiente de confiança e de promoção da paz, com base nas propostas feitas por países que, depois, por motivos internos ou outros, apoiaram as sanções contra o Irã. Estou con­fiante de que a Declaração de Teerã, assinada pelo Brasil, pela Turquia e pelo Irã, continua­rá a ser, ainda que com outro nome, uma refe­rência nas negociações sobre o tema.







Ainda existem acertos a serem feitos para que o Brasil acompanhe o desenvolvi­mento visto em países do BRIC. De que forma afoita das reformas política e tributária atra­palhou o desenvolvimento da nação no plano internacional?



Não me parece que o Brasil esteja em ritmo de desen­volvimento inferior ao dos demais países do BRIC. Em uma série de aspectos, por sinal, temos indicado­res mais consistentes. Quanto às reformas política e tributária, são temas que dizem respeito à dinâmica institucional doméstica do país. O maior espaço que o Brasil tem ocupado no cenário internacional decorre da percepção objetiva de uma série de fatores: a pu­jança e o potencial de crescimento da nossa economia, nosso comprometimento firme com o multilateralismo, nossas posições construtivas nas negociações so­bre mudança do clima e em outros temas, nossas ino­vações na área de bicombustíveis, o vigor da nossa democracia e o caráter plural de nossa sociedade.







Após oito anos intensos, quais são os planos do senhor a partir do dia 1º de janeiro de 2O11? Tenho um convite para dar aulas na UFRJ. E espero ter um convite dos meus filhos para dar palpites nos roteiros dos seus filmes, e de meus netos, para passar mais tempo com eles.

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