14/10/2010
Opinião
José Dirceu
Advogado e ex-ministro da Casa Civil
Não é de hoje que amoeda é usada como instrumento de pressão. A crise econômica internacional de 2009, no entanto, tem direcionado as nações desenvolvidas e em desenvolvimento para uma “guerra cambial”. Em suma, os EUA têm operado com uma taxa de juros baixíssima e produzido dólar suficiente para enxurrar o mundo com sua moeda — US$ 2 trilhões. A estratégia é tentar animar sua economia, minimizando os efeitos da crise, e empurrar parte da conta para as nações em desenvolvimento—o Brasil, por exemplo.
O derretimento do valor do dólar no mundo, no entanto, cria obstáculos às demais nações, obstruindo as saídas de exportação. Nesse ponto reside o nó cambial: a China, com reservas de trilhões de dólares, já mostrou que não deixará o dólar flutuar sobre sua moeda, o que significa na prática que não aceita o ônus de prejudicar suas exportações para arcar coma salgada conta americana. Europa e outras nações em desenvolvimento, como o Brasil, têm também tomado medidas para proteger suas moedas.
O resultado dessa “guerra cambial” é, por hora, a derrubada de mais um dogma tão caro ao (neo)liberalismo econômico: o do câmbio livre à mercê do mercado e das “forças espontâneas reguladoras”. A doutrina ortodoxa apoiada por interesses financeiros e comerciais dominantes tenta negar que os governos manipulam e arbitram suas taxas de câmbio para além das forças do mercado. Mas é evidente que a questão do câmbio depende de razões econômicas e comerciais e dos interesses das nações e dos governos. Na década de 1990, quando o governo brasileiro engolia os remédios prescritos pelo Consenso de Washington, interessava o dogma do câmbio fixo, que custou a nós e aos argentinos 10 anos de estagnação, uma dívida pública que pagamos até hoje, taxas elevadíssimas de juros e pedidos de socorro ao FMI.
No atual momento, o receituário é o inverso: mantenham o câmbio flutuante, para poderem as nações desenvolvidas “surfarem” sobre as em desenvolvimento. Felizmente, o atual governo já mostrou que irá operar em conformidade com os interesses nacionais. Assim, tem atuado com medidas de controle do câmbio, ciente de que apenas um acordo entre governos poderá conter a malfadada “guerra cambial”. Sem um acordo entre governos, temos que nos defender e nos preparar para o pior nessa “guerra cambial”, que é também “comercial”.
O caminho é a adoção de outras medidas para além do aumento do IOF, como o controle dos capitais e a redução da nossa taxa de juros.O momento é de derrubar o dogma do câmbio flutuante ao bel-prazer do mercado e, sem ilusões, ter consciência de que as taxas de câmbio são decisivas para o crescimento, o nível de inflação e as exportações.Não podemos e não devemos aceitar o apelo e a pressão dos EUA e da Europa para que apreciemos nossa moeda segundo seus interesses. Porque, como em outros momentos de crise, o resultado é exclusivamente impulsionar suas economias endividadas e estagnadas usando o bom momento da nossa como mola.

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