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quarta-feira, 9 de março de 2011

Nada de novo no fechado front norte-coreano



Claudia Sarmento, Correspondente

TÓQUIO. Formado em Literatura Britânica e ex-alto funcionário da estatal de seguros norte-coreana, Kim Kwang-Jin já foi um representante da privilegiada elite de Pyongyang, leal à ditadura comunista. Em 2003, deixou seu país para trás e se tornou um dissidente. Por conhecer segredos do mais fechado regime do mundo, Kim é considerado um analista que pode prever como poucos o futuro da Coreia do Norte. Enquanto tremores populares sacodem governos no Norte da África e no Oriente Médio, o solo controlado por Kim Jong-il permanece firme. Para Kim, manifestações em massa amparadas pela força da internet, como se viu no Egito, são um cenário impensável na Coreia do Norte.

Pelo menos enquanto o ditador estiver vivo, acredita. — Não existe mídia social na Coreia do Norte. Trezentas mil pessoas têm celular, mas sem conexão com o mundo. A informação pode circular rapidamente, mas só se conseguir entrar. Antes da morte de Kim Jong-il, não se pode apostar num colapso súbito do regime, como vemos no mundo árabe.

A economia norte-coreana está falida, a população passa fome e os mercados negros, onde se podem comprar CDs, DVDs e equipamentos eletrônicos estrangeiros, estão se espalhando. A ditadura — que vive um incerto processo de sucessão — está perdendo a força e enfiando os pés pelas mãos com provocações cada vez mais agressivas, como o ataque a uma ilha da Coreia do Sul, no ano passado.

Filho engorda para ficar parecido com o avô

Há, portanto, sinais de instabilidade, mas ainda não dá para falar em mobilização social num país que esmagou as instituições. Como na Líbia, o Exército não tem um comando central e obedece ao Estado.

— Não há Igrejas, associações e nem um time de futebol sem a autorização do governo. Nada que possa levar a uma mobilização é possível. Mesmo assim, o regime parece temer protestos e pôs tanques em grandes espaços públicos só para garantir — diz Chuck Downs, diretor do Comitê para Direitos Humanos da Coreia do Norte, a maior ONG americana voltada para o país.

Kim Kwang-jin, da mesma ONG, acha, porém, que depois do Querido Líder há chances de mudança. O dissidente foi um dos poucos com acesso às operações financeiras da ditadura, que movimenta ilegalmente milhões de dólares.

Tudo relacionado à família do líder norte-coreano é segredo. Ninguém sabe ao certo quantas mulheres e filhos ele tem ou seu estado de saúde. O herdeiro é o caçula, Kim Jongun, de 27 anos, que está sendo preparado, inclusive fisicamente. Há rumores de que o jovem teria passado por um regime de engorda para ficar mais parecido com o avô, Kim Il-sung, o fundador do Estado comunista.

— O filho não tem força para manter o despotismo, como fizeram o pai e o avô. A sucessão trará desafios inéditos para a família e a divisão política — aposta o dissidente, que não descarta a possibilidade de um golpe após a morte de Kim Jong-il. Ideologicamente, acredita ele, o regime já afundou. — Mas falta cair o esqueleto do sistema — conclui.

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