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sábado, 9 de abril de 2011

Conexão diplomática / coluna (9/4/2011)



Por Silvio Queiroz
silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
O preço de ser levado a sério

Paris/Bruxelas — Em uma das semanas mais atribuladas dos últimos anos para a diplomacia francesa, o Ministério das Relações Exteriores, no elegante Quai D'Orsay, encontrou tempo e energia para cultivar uma relação que define como “única” no universo das novas potências emergentes. Em conversas reservadas com jornalistas brasileiros, diplomatas que acompanham de perto o país não hesitaram em defini-lo como “eixo prioritário” no contexto latino-americano e, mais que isso, a aliança de maior profundidade, de uma perspectiva histórica e até “amorosa”, entre as que a França vem costurando no novo cenário global multipolar. E, por isso mesmo, Paris se reserva direito a algumas cobranças sutis.

Uma dessas fontes atribuiu a Jacques Chirac, o antecessor imediato do presidente Nicolas Sarkozy, de enxergar essa nova ordem mundial em formação, que “se movimenta como as placas tectônicas da Terra”. E é nesse contexto que o Quai D'Orsay digere a abstenção brasileira na votação pela qual o Conselho de Segurança, por proposta da França e do Reino Unido, autorizou a intervenção militar na Líbia. “Estaríamos decepcionados se o voto fosse contrário”, explicou o diplomata. “O Brasil, enfim, se alinhou com os outros Brics e com a Alemanha.”

Ainda assim, a relutância do Planalto e do Itamaray em dar aval ao que Paris vê como uma operação humanitária e inadiável merece uma discreta censura. “É preciso correr riscos para ser um ator na cena internacional”, raciocina outro funcionário. Justamente por isso, mas não apenas por isso, Sarkozy justifica a aposta no componente militar da parceria estratégica com o Brasil. “Não se trata apenas de vender submarinos, mas de construir junto”, ressaltou outro diplomata. “Para assumir as responsabilidades que correspondem ao status de uma potência global, é preciso ter os meios para isso, inclusive do ponto de vista militar. Mas é preciso também tomar decisões e fazer escolhas que não são fáceis.”

Charme
Nos escalões mais altos do Quay D'Orsay, é consenso que, entre as alianças estratégicas firmadas pela França — com China, Rússsia, África do Sul e outros —, a que mais avança é a brasileira. “Temos afinidades incomparáveis, seja na história, na cultura, na relação direta entre os povos e as sociedades. Vocês trazem na mala uma bagagem de simpatia que é irresistível.” A expectativa, agora, é para saber como ficarão as coisas no governo Dilma. “É preciso manter o animal vivo”, compara um diplomata. Até porque Sarkozy enfrenta as urnas daqui a um ano, e por ora o cenário é no mínimo difícil para os planos de reeleição.

Mon ami
Não por acaso, o ex-presidente Lula é objeto de indisfarçado interesse no Quai D'Orsay. Os diplomatas que se ocupam do Brasil — único país da região a ter uma diretoria a seu cargo — andam ávidos por saber o que anda fazendo e o que anda dizendo o “mon ami” de Sarkozy. Um funcionário com anos no ministério, inclusive em posto no Brasil, confidenciou que, “sem dúvida, Lula é o governante com quem o presidente se entendia melhor, pessoalmente”.

O bife ou o telefone
Dentro de aproximadamente um mês, quando delegações da União Europeia (UE) e do Mercosul iniciarem, em Assunção, a quinta rodada de conversações desde o relançamento das negociações para o primeiro acordo de associação comercial bloco a bloco, o lado de cá terá na manga uma carta que o outro jogador costumava monopolizar. Quando o processo foi interrompido, em 2004, e até a retomada, em maio de 2010, eram os europeus que apontavam as divisões no Mercosul como obstáculo ao progresso. A crise de 2008-2009, porém, atingiu o Velho Continente como torpedo a meia-nau: a urgência de conseguir mercados e contratos para suas áreas de excelência —produtos industriais e serviços — torna os exportadores europeus mais ávidos por um acordo que lhes abra as portas de uma região que aporta milhões de novos consumidores todos os anos. Eles dão sinais de que não mais cerrarão fileiras com os vizinhos agricultores, zelosos de proteger os próprios mercados das importações sul-americanas, se for esse o preço a pagar por contratos de que eles precisam para ontem.

A divergência não é nova, mas jamais tinha sido tão claramente exposta no QG da UE, em Bruxelas, no âmbito das diferentes áreas do executivo comunitário, a Comissão Europeia (CE). Em conversas reservadas com um grupo de jornalistas brasileiros, ao longo da semana, eurocratas que acompanham de perto as conversações prévias à reunião de Assunção deram a entender que “a área de comércio” da CE enxerga uma “oportunidade real” de avançar para um acerto e, com isso, abrir os portos sul-americanos para setores como a indústria automobilística e a telefonia. Evidentemente, ponderou um desses funcionários, tudo dependerá da contrapartida, “do quanto será possível abrir o mercado agrícola europeu”. Pelo lado dos que zelam pela economia rural europeia, é claro, a sensação é de que pagarão o pato os fazendeiros, em especial os produtores irlandeses de carne.

Nos imponentes edifícios da capital belga, desenha-se nos corredores uma queda de braço silenciosa entre o telefone e o bife.

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