Presença dos EUA após retirada do Afeganistão inquieta países da região
Rod Nordland
Cabul (Afeganistão)
The New York Times
Cabul (Afeganistão)
The New York Times
Primeiro, as autoridades norte-americanos falavam em começar a retirada do Afeganistão em julho de 2011. Depois, os norte-americanos e os aliados da Otan começaram a falar numa transição, entregando gradualmente o controle da guerra para os afegãos, até sair finalmente do país em 2014. Agora, entretanto, já se fala sobre o que acontecerá depois de 2014.
O Afeganistão e os Estados Unidos estão negociando um novo acordo que está sendo chamado de Declaração de Parceria Estratégica para além de 2014.
Críticos, incluindo muitos dos vizinhos do Afeganistão, chamam-no de Acordo de Bases Permanentes – ou, de forma mais cínica, de Grande Jogo 3.0, estabelecendo uma comparação com a malfadada rivalidade entre os britânicos e os russos na região durante os séculos 19 e 20.
É sem dúvida um processo delicado, e que veio num momento crítico. Funcionários afegãos expressaram preocupações de que as negociações possam ameaçar o diálogo de paz com o Talebã, agora em seus estágios iniciais, uma vez que os insurgentes insistem que só negociarão depois que as forças estrangeiras deixarem o país. O fato de eles já estarem falando é uma indicação de que estão dispostos a ceder quando houver uma retirada – mas é difícil imaginar que o Talebã aceite uma presença duradoura dos EUA no país.
Conversas formais sobre um acordo de longo prazo começaram no mês passado sob a supervisão de Marc Grossman, enviado do governo de Obama ao Afeganistão e Paquistão, e uma delegação visitou Cabul sob o comando de Frank Ruggiero, funcionário do Departamento de Estado que coordenou a Equipe de Reconstrução Provincial de Kandahar até o ano passado.
A reação na região foi imediata. O ministro de interior iraniano correu para visitar Cabul, seguido logo depois por conselheiros nacionais de segurança da Índia e da Rússia.
Os russos, embora costumem apoiar o papel da Otan no Afeganistão, ficaram alarmados com a perspectiva de uma presença ocidental a longo prazo.
“O lado russo apoia o desenvolvimento do Afeganistão por suas próprias forças em todas as áreas, na segurança, economia e política, mas apenas por suas próprias forças, especialmente depois de 2014”, disse Stepan Anikeev, conselheiro político da embaixada da Rússia no país. “Como que uma transição é possível com essas bases?”
Funcionários norte-americanos se apressaram para reassegurar a Rússia e outros vizinhos sobre suas intenções depois de 2014. Grossman fez uma visita a Moscou no mês passado para isso. E funcionários da secretária de Estado Hillary Rodham Clinton insistiram que qualquer presença depois de 2014 não significava bases permanentes.
É uma “estrutura de longo prazo para nossa cooperação bilateral”, disse Clinton num discurso na Sociedade da Ásia em 18 de fevereiro.
“De forma alguma nosso compromisso de longo prazo deve ser confundido com um desejo dos Estados Unidos ou de nossos aliados de ocupar o Afeganistão contra a vontade de seu povo”, disse Clinton, acrescentando: “nós não queremos ter nenhuma base militar norte-americana permanente no país”. Os russos, entretanto, reclamaram que qualquer conversa sobre a presença de tropas estrangeiras no Afeganistão depois de 2014 viola os acordos internacionais, incluindo um acordo firmado numa declaração conjunta dos presidentes Barack Obama e Dmitry Medvedev em 24 de junho, apoiando um status de neutralidade para o Afeganistão.
Funcionários afegãos reconheceram, entretanto, que as negociações contêm algum tipo de bases duradouras após 2014, mesmo que apenas com a finalidade de continuar treinando as tropas afegãs. “O que estamos discutindo é a estrutura de um acordo estratégico”, disse Ashraf Ghani, conselheiro do presidente Hamid Karzai que é um dos negociadores afegãos. “Os EUA têm muitos acordos longos de 10 a 25 anos, uma grande variedade de acordos.”
“O importante agora é que a sensação de abandono que ficou no ar no ano passado desapareceu”, disse ele.
No entanto, uma base duradoura para um é uma base permanente para outro – e, na região, muitas pessoas viram as garantias de Clinton como prova de que os Estados Unidos não estavam saindo do país, não importa o nome que se dê a essas bases.
“Um acordo de 10 ou 20 anos pode ser prolongado a qualquer momento”, disse Anikeev. “E não temos garantia de que ele não seja permanente.”
“Os norte-americanos não têm sido honestos sobre isso, mesmo entre eles”, disse Mullah Attullah Lodin, vice-presidente do Alto Conselho para a Paz no Afeganistão, que é encarregado de liderar as iniciativas de reconciliação com o Talebã. “Um diz que não estamos construindo bases, outro diz que as estamos construindo, e é muito confuso.”
A maior preocupação, disse ele, é que se um acordo como este for atingido, ele tornaria muito mais difícil entrar em negociações de paz sérias com o Talebã. “Esta é a primeira coisa que o Talebã demanda, a retirada das tropas estrangeiras”, disse Mullah Lodin.
Rangin Dadfar Spanta, conselheiro nacional de segurança de Karzai, discorda. “A reconciliação e uma relação estratégica não são contraditórias. Temos os mesmos objetivos, a paz e a estabilidade no Afeganistão, e a eliminação dos santuários e das bases do terrorismo, isto é para o bem comum”. Apesar dessas preocupações, funcionários dos EUA e do Afeganistão estão negociando um cronograma acelerado, e os norte-americanos esperam chegar a um acordo em julho, quando devem começar as primeiras retiradas de algumas tropas norte-americanas, dizem os diplomatas.
“Os afegãos estão muito preocupados com depois de 2014”, disse um diplomata europeu, que falou sob condição de anonimato por causa de susceptibilidades diplomáticas. “Eles estão tentando extrair do Ocidente o máximo que podem agora”. Ghani disse que funcionários afegãos esperavam conseguir um acordo sobre a transferência das Equipes de Reconstrução Provinciais, que dispensam a ajuda direta dos Estados Unidos e de países da Otan em projetos no interior do Afeganistão, sob controle afegão. Em geral, os afegãos querem que mais dinheiro de ajuda passe pelo seu governo, e também querem uma presença reduzida das ONU.
Também há a questão de como os afegãos serão capazes de pagar por sua polícia e poder militar inflados, que segundo algumas estimativas, exigirão US$ 10 bilhões (R$ 15,7 bilhões) por ano para se sustentar até 2014 – dez vezes a arrecadação anual do governo afegão.
“A mentalidade é conseguir o máximo possível durante os próximos anos”, disse o diplomata europeu. “Eles realmente entendem que não receberão o mesmo tanto que costumavam receber, e estão desesperados para conseguir o máximo que podem.”
Um diplomata regional, falando sob condição de anonimato por motivos semelhantes, disse que os norte-americanos também estão preocupados com uma permanência de longo prazo no Afeganistão por causa de seus próprios interesses.
“Houve uma época em que os norte-americanos lutavam para encontrar uma base na Ásia Central”, disse ele. “Este é um lugar em que eles podem ter todas as bases que desejarem, e o Afeganistão fica localizado entre duas possíveis potências nucleares islâmicas, o Irã e o Paquistão.”
“Há forças que estão reagindo e se coçando para dar o tiro de partida no Grande Jogo 3.0, e os insurgentes tentarão explorar isso”, disse Mark Sedwill, representante civil sênior da Otan no Afeganistão, num discurso recente.
Atingir um acordo entre diplomatas para uma Declaração de Parceria Estratégica será apenas o primeiro passo. Karzai já disse que qualquer acordo terá que ser submetido a uma loya jirga nacional, uma assembleia tribal que age como referendo de questões importantes.
“Em geral, o povo do Afeganistão é contra forças estrangeiras”, disse o negociador Mullah Lodin. “Eu não acho que a loya jirga apoiará as forças estrangeiras no país.”
Spanta reconheceu a dificuldade. “Temos que convencer o povo afegão que há algo para nós nisso”, disse ele.

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