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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sem Kadafi, futuro incerto


Mundo

Segundo especialistas, caso o ditador caia, Líbia corre o risco de mergulhar em disputas internas que podem levar até mesmo à divisão do território
Para Muamar Kadafi, o povo líbio tem duas opções: aceitar seu governo ou enfrentar o caos. A sentença do ditador, lançada em seu primeiro discurso oficial depois do início da revolta, pode ser real. A Líbia, ao contrário do Egito e da Tunísia, terá mais dificuldades para sustentar um possível governo transitório. Com uma estrutura social baseada em tribos, não existe ali unidade nacional para sustentar um novo Estado, pois, em seus 40 anos de poder, o mandatário não permitiu a formação de um parlamento, partidos políticos, sindicatos ou uma sociedade civil organizada. Segundo especialistas ouvidos pelo Correio, o quadro que surgirá caso a rebelião contra o regime atinja seu objetivo é imprevisível, sendo possível até mesmo a divisão do território da nação africana.

A luta dos opositores ao regime de Kadafi não está sendo fácil, muito menos rápida. “Os opositores resolveram se apoiar na força das armas, uma área que o governo domina. E as Forças Armadas ainda estão do lado oficial. Essa foi a grande diferença em relação ao Egito e à Tunísia, onde os militares se recusaram a atirar contra os manifestantes. O regime não vai conseguir reconquistar os territórios perdidos, mas será um longo caminho até que o mandatário seja derrotado”, acredita Stephen Zunes, professor de política do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de São Francisco.

A saída de Kadafi deve provocar um vácuo político no país e a necessidade de uma nova liderança. “A Líbia não tem uma sociedade civil ou uma identidade nacional, é dividida em muitos clãs. A ideia de ser um cidadão líbio ainda é uma construção recente. A liderança no país sempre foi formada na base da força. Primeiro, pelos colonizadores, e, depois, pelos governantes. Uma transição democrática será algo totalmente novo”, comenta Heni Ozi Cukier, professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Para o país caminhar em direção à ordem e à democracia será preciso criar um consenso entre os rebeldes. Por enquanto, parece existir um objetivo unificado e momentâneo de derrubar Kadafi, com a ajuda da coalizão internacional. Quando ele não estiver mais no poder, porém, será necessário vencer interesses particulares para manter a união. “Uma vez que acabe o elemento motivador fundamental, que é a saída de Kadafi, quais serão as estruturas de contenção do país? Não há partidos ou força institucional. Será uma situação muito complicada”, afirma Héctor Luis Saint-Pierre, professor de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Cenários
De acordo com Cukier, existem três possíveis cenários depois da queda do regime. “O primeiro é otimista: os rebeldes de diferentes tribos podem conseguir se organizar e iniciar o processo de transição. Outra possibilidade é o país ficar fragmentado com disputas internas, sem avançar. E ainda existe a pior alternativa, que não é tão impossível assim. A Líbia ser dividida e afundada em uma guerra civil, com líderes governando pequenos feudos, como acontece na Somália hoje”, resume o especialista.

O leste do país está dominado pelos rebeldes e, em uma estratégia defensiva, Kadafi enviou suas tropas para o oeste. A divisão geográfica entre as duas regiões também pode ser uma das consequências da revolta líbia. “É um cenário que pode sim acontecer. Kadafi está tentando se manter e delimitar o espaço dele, então a divisão de território também é uma possibilidade. Entregar-se ou buscar o exílio é impossível para ele”, afirma Cukier.

Por outro lado, o norte-americano Zunes acredita que, apesar do histórico de divisões regionais, será muito difícil fugir do desejo de democracia da população. “É claro que precisamos observar como será o processo de transição. Mas já é possível observar a consolidação de um governo no leste, mesmo que provisório. E em compensação, a parte oeste continua sem uma resolução no meio da crise. É possível que um grupo se sobressaia”, ressalta o professor da Universidade de São Francisco.

A revolta na Líbia começou com um grande movimento contra o governo Kadafi, mas agora começa a dar sinais de uma estrutura institucional. Em Benghazi, segunda maior cidade do país, os rebeldes tomaram o controle da região e formam comissões improvisadas para organizar a mobilização. “A ausência de uma forte sociedade civil pode, de fato, ser um grande problema. No entanto, as instituições autogovernantes que têm sido criadas na região mostram promessas para uma transição democrática”, aponta Zunes.

Próximos líderes
A grande pergunta é quem vai assumir o controle se um governo de transição for instaurado. O mais provável é que o comitê formado pelos rebeldes tome o comando, mas também há riscos de uma divisão interna, com o aval da Organização das Nações Unidas (ONU). As chances de os militares assumirem, como aconteceu no Egito depois da revolta que derrubou o ex-presidente Hosni Mubarak, são mínimas. “É difícil para os militares funcionarem como uma força facilitadora quando eles fazem parte do confronto”, afirma Saint-Pierre, da Unesp. Para o especialista, as forças religiosas também se mantêm à margem da situação na Líbia, por necessidade política, mas podem vir à tona, caso seja necessário.

Depois de derrubar a monarquia que reinava a Líbia desde a independência da Itália, em 1949, Kadafi controlou o país tribal com pulso firme durante quatro décadas. O líder garantiu que nenhum grupo opositor ganhasse força e, em muitas ocasiões, provocou conflito entre clãs rivais para permanecer no comando. “Ditadores são demagogos, conseguem falar com o povo. E ele eliminou todos os instrumentos que pudessem derrubar essa fala direta, como sindicatos, imprensa e religião”, analisa o professor da Unesp.

A comunidade internacional deve interferir em um processo de transição na Líbia, mas terá de escolher quem apoiar. “É preciso, antes, descobrir quem vai fazer parte da disputa política, qual será o peso do atores no processo transacional e impor um tempo determinado e uma direção para essa transição. O país pode passar por uma nova institucionalização e constituição”, afirma Saint-Pierre.

Tatiana Sabadini

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